A estação seca tem se intensificado em diversos biomas, aumentando significativamente a frequência de grandes incêndios no Brasil, especialmente nos períodos mais críticos dessa estação.
De acordo com dados do Monitor do Fogo do MapBiomas, a área queimada no Brasil cresceu 79% em 2024 em comparação com o mesmo período em 2023 (janeiro a dezembro), atingindo a marca de 30,8 milhões de hectares. Para se ter uma ideia, esta área é maior do que o território de toda a Itália (cerca de 30,2 milhões de hectares), ou do estado do Rio Grande do Sul.
A primeira coisa que se pensa quando se fala de fogo é algo ruim. Realmente, um fogo não controlado pode trazer inúmeros malefícios ao ambiente e aos seres vivos, como perda de vegetação e hábitat aos animais, perdas socioeconômicas, além do lançamento de poluentes na atmosfera, que provocam doenças respiratórias na população e contribuem com as mudanças climáticas.
Porém, o fogo é um elemento natural, assim como a água, o ar e a terra, sendo também gerador de muita vida. O fogo oferece serviços ecológicos, sociais e culturais.
Muitas formações naturais foram moldadas pela ocorrência natural do fogo há pelo menos quatro milhões de anos, tais como campos, como o bioma Cerrado, e savanas, como em algumas regiões do Pantanal. Os povos indígenas das Américas dominam o fogo há pelo menos 11 mil anos, aprimorando técnicas de controle para evitar incêndios.
Porém, este conhecimento de uso tradicional do fogo e a ecologia histórica de ecossistemas dependentes dele foram completamente ignorados por décadas, na aplicação de uma política de “fogo zero”. Quando se exclui a dinâmica do fogo de ambientes em que ele é necessário, há um acúmulo de matéria orgânica como capim e outros tipos de vegetação, chamada de “macega”, que é altamente combustível.
Foi então que a abordagem baseada no Manejo Integrado do Fogo (MIF) passou a ser adotada.
O que é o Manejo Integrado do Fogo?
É uma estratégia de gestão que associa aspectos ecológicos, técnicos, socioeconômicos e culturais. O objetivo desta ferramenta é integrar ações de controle, prevenção e combate aos incêndios florestais.
Manejar significa “fazer algo com as próprias mãos”, mas também inclui planejamento e avaliação de como, quando, por que fazer, entre outras perguntas importantes.
O MIF também visa a conservação da biodiversidade, diminuindo os impactos climáticos e ambientais sobre os ecossistemas. É essencial que o planejamento do MIF leve em conta o uso do fogo pelos povos tradicionais que interagem diretamente com o território. Em uma linguagem popular, o manejo integrado do fogo pode ser chamado de “fogo bom”.
A participação social é muito importante no planejamento e no manejo, para que a gestão do fogo seja feita com responsabilidade de todos. Para se manejar um local, é necessário conhecê-lo: qual tipo de vegetação e atividades produtivas que existem neste local, quando fazer e quem ficará responsável pelas atividades.
Portanto, o MIF busca integrar a experiência e o conhecimento de diferentes povos e comunidades, pesquisadores e gestores em ações de combate e prevenção aos incêndios, fazendo uso do fogo controlado, sempre que necessário.
Somente em 2024 é que a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo se concretizou, sendo uma importante ferramenta de gestão aliada à prática necessária.

Definições para ajudar a compreender
Fogo: é uma reação química, fruto da combinação de três elementos: combustível, calor e oxigênio. O resultado deste processo é a liberação de energia em forma de calor.
Incêndio florestal: é um fogo que ocorre de maneira não controlada em áreas de floresta ou em qualquer outra formação vegetal.
Queimada: é uma prática comum na agropecuária e também na agricultura tradicional indígena, utilizando o fogo como ferramenta de limpeza do terreno e renovação de pastagem. Nem sempre está relacionada a uma atividade ilegal ou prejudicial.
Foco de calor: é a forma de representar a ocorrência do fogo quando detectado em sistemas de monitoramento remotos (por satélite), que captam a energia liberada pelo fogo em forma de luz e calor. O foco de calor não distingue de maneira precisa se é um incêndio ou uma queimada.
Regime de fogo: é um conjunto de parâmetros que definem o comportamento histórico do fogo em uma determinada região que depende do fogo (ambiente pirofítico). Por exemplo, algumas áreas savânicas do Pantanal necessitam do fogo para germinação de determinada vegetação. Este termo é um pouco mais técnico e teórico, sendo caracterizado pela extensão, frequência, sazonalidade, intensidade, duração e período de retorno do fogo. Por conta desta relação temporal, estes regimes tem influência do clima, da vegetação e das fontes de ignição.
Fogo de superfície: fogo que se espalha de forma rasteira no chão ou na vegetação.
Fogo de copa: fogo que se desloca até a copa das árvores.
Fogo de turfa, turfeira, batume ou fogo subterrâneo: este fogo se inicia na superfície e se desloca para dentro do solo quando atinge uma área com grande acúmulo de matéria orgânica seca, consumindo-o lentamente. Estes solos estão associados a locais de comum inundação. O combate a este fogo é feito de maneira indireta, cavando trincheiras ao redor da área, até encontrar o solo mineral, e se possível encharcando essas trincheiras, para interromper a continuidade de combustível, contendo o espalhamento das chamas. Durante o combate, é preciso estar muito atento para não pisar nas brasas desse fogo.
Quando falamos de manejo de fogo, há mais duas definições importantes
Apesar de as duas formas de queima serem muito semelhantes, a diferença está na finalidade.
Queima prescrita: uso planejado, monitorado e controlado do fogo, realizado para fins de conservação, de pesquisa ou de manejo em áreas determinadas e sob condições específicas, com objetivos pré-definidos em um plano de manejo integrado do fogo.
Queima controlada: deve ser planejada com as comunidades e órgão ambiental responsável. O planejamento deve ocorrer para que a queima seja realizada na época, frequência e intensidade adequadas. A finalidade desta queima é agrossilvipastoril.
Agora que definimos um “vocabulário básico”, vamos seguir.
Por que planejar o fogo?
Primeiramente, no MIF são consideradas três componentes básicos (Myers, 2006):

Manejo do fogo: gestão do fogo realizada necessariamente por ação humana, contando com atividades de prevenção e combate a incêndios, preparação e usos do fogo.
Cultura do fogo: práticas culturais baseadas no conhecimento tradicional, utilizando o fogo como recurso cultural, econômico ou social. Geralmente usado para estimular rebrota de vegetação. Populações indígenas e tradicionais que são pecuaristas e coletoras utilizam o fogo para estimular rebrota de plantas úteis (gramíneas, plantas medicinais e frutíferas), mas também para eliminar plantas voluntárias/invasoras (limpeza de área), fazer ações profiláticas de pragas e doenças para a implantação de novos roçados (principalmente populações indígenas e tradicionais agricultoras). O povo Xavante, por exemplo, utiliza o fogo também para caçar. Outros povos usam o fogo para rituais que estruturam a vida e o cotidiano social.
Ecologia do fogo: considera a importância ecológica do fogo em ecossistemas que são adaptados e dependem dele.
O planejamento do MIF é de suma importância para que possíveis decisões técnicas e ações para prevenir, controlar ou usar o fogo em um determinado território, sejam tomadas com maior segurança possível.
Etapas do planejamento do MIF
1. Prevenção/educação
Campanhas educativas com a comunidade são essenciais para se evitar ocorrência de incêndios em épocas desfavoráveis. A educação ambiental é um ponto crucial na etapa de prevenção, incluindo o trabalho de sensibilização sobre o uso cultural e socioeconômico e o papel ecológico do fogo e mobilização social.
A contratação e capacitação de brigadas é outro ponto importante na prevenção. Brigadas comunitárias organizadas são estratégicas para o acompanhamento da dinâmica do ambiente. Estas brigadas e demais pessoas orientadas podem ser responsáveis pela construção de aceiros, gestão do material combustível e queimas prescritas.
A reabilitação de ecossistemas e mitigação de danos é primordial. A restauração ecológica a longo prazo garante um ecossistema resiliente ao fogo.
Além destes pontos mencionados, a criação de legislações específicas é crucial para o funcionamento do MIF. O poder público, nos âmbitos federal, estadual e municipal, precisam estar alinhados para regulamentar a prática do MIF.
2. Preparação/prontidão
Em paralelo à primeira fase, há a preparação para o MIF. Equipes ficam monitorando remotamente os focos de calor nos sistemas de sensoriamento remoto (INPE, Firms, Painel do Fogo, entre outros). Neste período também deve-se fazer as solicitações aos órgãos responsáveis para autorização de queimas controladas e prescritas. Este é o momento de as brigadas se equiparem, adquirindo equipamentos de proteção individual e de combate, assim como viaturas e veículos que são usados durante o combate.
3. Supressão/resposta
Após a fase de preparação, as brigadas ficam de prontidão para combate e pronta resposta. Segue-se o monitoramento com os sistemas remotos.
4. Pós-fogo
Extinguir o fogo não é sinônimo de que o trabalho acabou. As áreas afetadas pelos incêndios precisam ser avaliadas para identificação de pontos com necessidade de recuperação e restauração.
Relatórios de avaliação, com apresentação de dados robustos, são essenciais para guiar o planejamento do ano seguinte.
Além disso, a manutenção de viveiros de mudas nativas é primordial para que a restauração florestal seja mais eficiente.
Afinal, é normal o fogo no Pantanal?
A resposta mais curta é: Sim. Porém, não é normal o que temos visto nos últimos anos. Vamos entender:
A formação vegetacional do Pantanal é bem variada, com uma mistura única de plantas provenientes de diversos biomas, como o Cerrado, a Amazônia, a Mata Atlântica, além do Chaco e do Bosque Chiquitano. O Cerrado é a fitofisionomia predominante, cobrindo 36% da extensão do Pantanal, enquanto outras partes são bem adaptadas à áreas inundáveis.
Ou seja, parte da vegetação do Pantanal é relativamente resistente ao fogo, mas eventos extremos e com a magnitude que vem acontecendo, como visto em 2020 e 2024, não são comuns. Com o avanço dos efeitos das mudanças climáticas, torna-se indispensável uma agenda do Manejo Integrado do Fogo pensando no Pantanal como um todo.

Se o Pantanal alaga, por que temos que manejar o fogo neste bioma?
O Pantanal é um bioma marcado por ciclos de cheias e secas, contando com espécies da flora que são adaptadas para os dois extremos e germinam após o período de inundação. Desta forma, elas auxiliam na recuperação das áreas após o fogo.
De acordo com estudos de especialistas no Pantanal, para manejar o ambiente através do fogo, é importante conhecer a composição florística e o funcionamento do regime de inundação da área, pois as áreas mais inundáveis tendem a produzir mais biomassa, podendo gerar eventos de fogo com maior intensidade e extensão quando ocorre um evento de seca que possa expor essa biomassa. Vale ressaltar que áreas protegidas por lei, como matas ciliares, não entram no contexto do manejo integrado do fogo. Para áreas protegidas (Unidades de Conservação, entre outros), há um regramento específico.
Quais os benefícios do uso correto do fogo no Pantanal?
Damasceno Junior e mais 20 pesquisadores do Pantanal reuniram em uma cartilha os principais pontos para que o manejo integrado do fogo seja adequadamente empregado no bioma.
Os pontos cruciais são:
- A época favorável para realizar a queima de pastagem é quando a umidade relativa do ar e a temperatura estiverem adequadas. Para áreas onde a inundação ocorre no meio da estação seca (áreas adjacentes ao rio Paraguai), a queima pode ser realizada no meio da estação chuvosa;
- A pecuária extensiva praticada nas áreas de pasto nativo utiliza do fogo como ferramenta para limpeza de área, eliminação de material e espécies indesejadas (tais como carrapatos). A queima realizada na época certa pode favorecer a rebrota do capim e pouca perda de nutrientes no solo;
- O uso do fogo no Pantanal também é uma prática aliada da conservação, por ser feita em pasto nativo. Cerca de 2.500 espécies de plantas são favorecidas por esta prática.
Quais os malefícios do fogo descontrolado ou usado da maneira errada?
Os impactos vão desde o econômico, até o ambiental.
Impactos econômicos
- Redução de áreas produtivas;
- Destruição de cercas e construções civis;
- Ecologicamente, pode haver seleção de algumas espécies de gramíneas mais agressivas sobre outras;
- Redução da diversidade de pastagens úteis para a pecuária;
- Possível extinção de gramíneas nativas. Este caso já ocorreu em alguns campos de fazendas na região da Nhecolândia, em 2024;
- Mudança drástica da paisagem, afetando empreendimentos dependentes da beleza cênica (como o turismo de contemplação e ecoturismo, muito presente no Pantanal);
- Prejuízos à saúde humana e animal devido à inalação de fumaça e partículas suspensas do incêndio, aumentando, consequentemente, o número de internações hospitalares;
- Impactos no transporte aéreo, com possível fechamento temporário do tráfego aéreo.
Impactos Ambientais
- Alterações severas na composição química, física e biológica do solo;
- Mortalidade de árvores;
- Danos à composição e aos processos sucessionais da vegetação;
- Perda de habitats;
- Mortalidade de animais silvestres e domésticos;
- Emissão de gases de efeito estufa.
Mudanças climáticas afetam a dinâmica do fogo no Pantanal?
Completamente! As mudanças climáticas já são realidade no bioma. O aumento da temperatura tem sido de aproximadamente 1ºC por década desde 1980, ritmo quatro vezes superior à média global.
Os padrões de chuva já estão alterados, com secas prolongadas e quantidade de água disponível cada vez menor e existe uma maior frequência e intensidade de ondas de calor atingindo o bioma.
A perda de água no solo está aumentando principalmente devido à mudança da vegetação nativa para pastos cultivados. A atividade humana ocidental recente na região tem modificado todo o ciclo natural do fogo e da água no bioma.
Qual o efeito do fogo sobre a flora e fauna pantaneiras?
Em locais atingidos por fogo muito intenso, o efeito é imediato: vegetação totalmente queimada, com alta mortalidade de árvores. Mesmo nestas áreas intensamente queimadas, a flora irá se regenerar, seja por banco de sementes ou por rebrotamento de caules.
Algumas áreas tem histórico de recorrência de incêndios nos últimos anos. Nestes locais, apenas a vegetação selecionada consegue permanecer.
Essas mudanças na paisagem e na composição de espécies da flora pantaneira afetam muito a fauna local, principalmente quando relacionada a espécies arbóreas de grande porte. Estas árvores demoram muito para crescer (cerca de 10 a 20 anos), resultando em uma redução de recursos para a fauna.
Logo, a fauna é afetada de três maneiras:
Direta: animais sofrem com intoxicação, queimaduras e morte, principalmente animais de pequeno porte e que se deslocam por rastejamento.
Indireta: alteração do ambiente, redução de locais de refúgio, redução de recursos para alimentação, gerando a “fome cinza” (período pós-fogo em que a disponibilidade de alimento reduz drasticamente, havendo uma mortalidade e redução de ganho de energia) e problemas com regulação térmica.
Até aqui temos um material básico que guiará seus conhecimentos sobre o Manejo Integrado do Fogo. Leia também o texto sobre legislações vigentes para queima e manejo do fogo.








