O que era para ser o auge da estação chuvosa do Pantanal, janeiro não apresentou condições favoráveis. Choveu menos nas cabeceiras do bioma (região de planalto), indicando que provavelmente o ano de 2026 apresentará um cenário de seca acentuada e maior suscetibilidade ao fogo, conforme avaliação de especialistas.
O Boletim de Monitoramento Hidrológico da Bacia do Rio Paraguai de 11 de fevereiro, do Serviço Geológico do Brasil (SGB) mostrou que o nível da maioria dos rios afluentes que formam a Bacia está abaixo da normalidade. A chuva acumulada na bacia foi 16% menor que a média histórica (1998-2025) nos últimos 7 meses (julho de 2025 a janeiro de 2026).

Total de chuva mensal recente e históricos dos últimos 8 meses na Bacia do Rio Paraguai (delimitada pela estação de Porto Murtinho) – Fonte: SGB
Conforme a marcação de nível pela régua de Ladário, considerada referência para as previsões hidrológicas do Rio Paraguai, em 11 de fevereiro estava com apenas 90 centímetros, sendo que a média histórica para esta época é de 1,96 metro, segundo o SGB. Em 2024, de acordo com a medição realizada pela Marinha do Brasil, a mesma régua atingiu níveis alarmantes de menos 0,69 cm (menor medição, correspondente ao dia 17 de outubro de 2024), impedindo a navegação em diversos trechos.
A tendência é de que o Pantanal de Mato Grosso do Sul tenha o oitavo ano seguido sem cheia, conforme previsão do Serviço Geológico do Brasil. Também, de acordo com os dados registrados pelo SGB, a última grande cheia considerada foi em 2018, em que a mesma régua de Ladário registrou nível de 5,35 metros.
Poucas chuvas e influência do El Niño elevam risco de incêndios no Pantanal
Para este ano, há indícios de retorno do El Niño após suas condições de neutralidade, entre fevereiro, março e abril. O fenômeno climático pode intensificar a possibilidade de ocorrências de incêndios florestais no Pantanal. A previsão é do Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de Mato Grosso do Sul (Cemtec), com base em dados consolidados da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
O fenômeno aumenta a intensidade dos eventos severos, interferindo no regime de chuvas e no padrão de temperatura e de ventos, elevando consideravelmente o risco de fogo na região.
De acordo com o Cemtec, o El Niño atua diretamente no aumento das temperaturas e na irregularidade das chuvas no Estado. A previsão é de que o El Niño se desenvolva entre o fim do outono e início do inverno (entre junho e julho). Além disso, sua influência também deve afetar o período seco, que deve ser de chuvas insuficientes, abaixo da média histórica.

Seca no Rio Paraguai em 2021. Foto: Norberto Duarte/ AFP/ METSUL METEOROLOGIA
Em quatro décadas, bioma lidera aumento de temperatura e perda de chuvas no país
Estas alterações que estão sendo presenciadas agora não são frutos do acaso. Em 40 anos (1985 a 2024), o Pantanal foi o bioma que mais aqueceu e que teve a maior redução de chuvas no Brasil.
Dois levantamentos recentes chegaram a dados próximos: o MapBiomas Atmosfera, que considerou o período de 1985 a 2024, e um artigo assinado por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) publicado na revista científica Atmosphere, que considerou o período de 1979 a 2024, ambos publicados no final de novembro de 2025.
Os trabalhos verificaram que a temperatura média do bioma aumentou 0,47°C por década, totalizando quase 1,9 °C no período. Este foi o maior aumento registrado quando comparados os biomas brasileiros, um crescimento de 60% acima da média nacional, que foi de 0,29ºC por década. Coincidentemente, os estados que mais aqueceram no período foram Mato Grosso (0,35ºC por década) e Mato Grosso do Sul (0,40ºC por década).
Os dois estudos utilizaram dados de temperatura da base europeia ERA5, do Serviço de Mudança Climática Copernicus, sistema que reúne e valida uma série de informações meteorológicas monitoradas na superfície e na atmosfera por diferentes fontes (satélites, balões, aeronaves, sensores), gerando uma reanálise da evolução histórica do clima. “O Copernicus é um dos serviços internacionais que acompanham a evolução do aquecimento global e divulgou em janeiro de 2026 que o ano passado foi o terceiro mais quente da história recente”, trecho retirado do artigo publicado na revista FAPESP.
Redução de chuvas
O trabalho dos pesquisadores do Inpe verificou que houve uma redução média de 10,45 milímetros (mm) na quantidade de chuva que caiu a cada década no Pantanal ao longo dos 45 anos analisados (1979-2024).
Tão preocupante quanto a intensa redução observada no Pantanal é a que ocorre no Cerrado, bioma predominante nas áreas das cabeceiras dos planaltos e fundamental para o abastecimento da Bacia do Alto Paraguai. No Cerrado, a queda foi de 7,92 mm por década.
O estudo ainda mostrou que o valor médio das temperaturas máximas e mínimas cresceram no Brasil, mas a velocidade de subida da média das máximas é quase o dobro da média das mínimas: os dias estão esquentando mais rápido do que as noites. Estas variações, dizem os especialistas, são produtos das alterações humanas, não sendo apenas influência das variações cíclicas naturais.
Apesar de ser o bioma mais protegido do país, é também o mais vulnerável
O Pantanal é um dos biomas mais protegidos do país, com cerca de 85% de sua paisagem original preservada, segundo a Embrapa Pantanal. Patrimônio Natural da Humanidade e Reserva da Biosfera pela UNESCO, o bioma também é Patrimônio Nacional, possuindo um arcabouço legal de restrições de uso, além de extremo valor ecológico. Mesmo com todas estas proteções, é um dos biomas que mais tem sofrido pressões nas últimas décadas.
É um bioma extremamente sensível, dependendo de importantes fatores climáticos que ocorrem principalmente na Amazônia e no Cerrado. Por exemplo, se as chuvas no bioma amazônico diminuem (principalmente por conta do avanço do desmatamento), afetando o transporte de água pelos rios voadores, consequentemente as chuvas diminuem no Pantanal, tornando-o mais seco e quente, de acordo com o meteorologista Luiz Machado, do IF-USP, que trabalhou no levantamento MapBiomas Atmosfera.
As alterações climáticas estão afetando o principal mecanismo que o define como “planície alagável”: o pulso de inundação, o movimento de cheias e secas no Pantanal.
Portanto, a expectativa para 2026 é de que seja um ano mais quente e seco na planície pantaneira, podendo haver mais previsão de incêndios florestais.






